A retenção placentária deve entrar no raciocínio clínico quando a lactogênese II — frequentemente descrita como a “descida do leite” — está atrasada, sobretudo se houver sangramento persistente, dor uterina, febre ou involução uterina inadequada. A prioridade, porém, é reconhecer que a combinação de sinais maternos e baixa transferência de leite pode exigir encaminhamento obstétrico, além do suporte especializado em lactação.
A relação entre retenção placentária e produção de leite não significa que todo atraso na lactogênese seja causado por fragmentos placentários. Trata-se de uma associação clínica relevante, mas incomum e que precisa ser investigada em conjunto com outras causas maternas, obstétricas e neonatais de baixa produção ou de ingestão insuficiente pelo recém-nascido.[1]
O que muda na fisiologia da lactação
A lactogênese ocorre em fases. Durante a gestação, o tecido mamário se desenvolve sob influência de hormônios como estrogênio, progesterona, prolactina e lactogênio placentário. Após a saída da placenta, a queda da progesterona permite a ativação secretória, ou lactogênese II, desde que outros elementos — especialmente prolactina, cortisol, saúde materna e remoção frequente de leite — estejam adequados.[2]
Quando permanecem fragmentos placentários funcionantes no útero, pode haver manutenção de atividade hormonal placentária e atraso na queda da progesterona. Esse mecanismo é biologicamente plausível e descrito na literatura como uma possível interferência na ativação secretória.[3] A evidência clínica direta, entretanto, é limitada: há relatos de caso e revisões fisiológicas, mas não se deve transformar essa hipótese em diagnóstico sem avaliação obstétrica.[4]
A Academy of Breastfeeding Medicine inclui placenta retida entre os fatores maternos associados à lactogênese II atrasada ou à baixa produção de leite.[1] Essa classificação é útil para a triagem: o achado não confirma retenção, mas indica que a história obstétrica deve ser revisada quando a produção parece não evoluir como esperado.
Como reconhecer o atraso na descida do leite
A lactogênese II costuma ocorrer nos primeiros dias após o parto, mas existe variação individual. Para fins clínicos, considera-se atrasada quando há pouca ou nenhuma percepção de aumento do volume, plenitude mamária ou vazamento de leite após aproximadamente 72 horas do nascimento.[1]
A percepção materna, isoladamente, não mede a produção. Algumas mulheres não sentem mamas muito cheias e ainda assim transferem leite adequadamente. Por isso, a avaliação deve combinar:
- observação de uma mamada;
- qualidade da pega, sucção e deglutição;
- frequência das mamadas e remoções de leite;
- presença de colostro ou leite ordenhado, sem usar o volume de uma ordenha isolada como diagnóstico;
- diurese e evacuações do recém-nascido;
- peso, hidratação, comportamento e sinais de ingestão insuficiente;
- evolução clínica materna e obstétrica.
No recém-nascido a termo, lactogênese II atrasada associada a ingestão inadequada pode exigir avaliação médica e discussão individualizada sobre suplementação. A Academy of Breastfeeding Medicine recomenda verificar posição, pega e transferência de leite antes de indicar complemento, preservando a estimulação das mamas quando o complemento for necessário.[5]
A expressão “retenção placentária leite materno” pode levar a uma interpretação simplista. O ponto clínico não é procurar uma explicação única para a baixa produção, mas identificar quando a história do parto e os sinais puerperais tornam necessária uma investigação obstétrica paralela ao manejo da amamentação.
Sinais que devem mudar a prioridade
A suspeita ganha relevância quando o atraso na lactogênese ocorre junto a sinais compatíveis com retenção de restos ovulares, hemorragia secundária ou infecção puerperal. Entre os achados que justificam contato médico rápido estão:
- sangramento vaginal que aumenta, permanece intenso ou volta a ficar vermelho vivo após ter diminuído;
- saída de coágulos grandes ou de tecido;
- dor abdominal ou pélvica persistente, intensa ou em piora;
- útero aumentado, doloroso ou com involução aparentemente inadequada, quando essa avaliação fizer parte do escopo profissional;
- febre, calafrios ou mal-estar importante;
- lóquios com odor desagradável;
- tontura, fraqueza, palidez, taquicardia ou sensação de desmaio;
- ausência de progressão da lactogênese apesar de remoção frequente e manejo efetivo da mamada.
Sangramento intenso, tontura, fraqueza importante, dor intensa, febre ou sinais de instabilidade não devem ser manejados apenas como uma dificuldade de amamentação. Restos placentários estão entre as possíveis causas de hemorragia pós-parto tardia, e a avaliação precisa ocorrer em serviço médico com capacidade de investigação e tratamento.[6]
A presença de sangramento normal do puerpério não deve ser confundida automaticamente com retenção. A tendência esperada é de redução progressiva do fluxo e mudança gradual da coloração dos lóquios. Quando o sangramento fica mais intenso, não diminui, apresenta odor incomum ou vem acompanhado de dor e febre, a orientação é buscar avaliação.[7]
Aplicação prática: organizar o raciocínio em duas frentes
Na prática, o profissional pode organizar a consulta em duas frentes simultâneas.
Frente materna: investigar risco obstétrico
Revise o relato do terceiro período do parto: a placenta saiu completa? Houve dificuldade para sua saída, extração manual, curetagem, hemorragia, atonia uterina ou suspeita de aderência? Houve alta sem uma reavaliação clara quando persistiam sangramento e dor?
Pergunte sobre temperatura, calafrios, intensidade e evolução do sangramento, presença de coágulos, dor, odor dos lóquios, tontura e capacidade de realizar atividades básicas. Registre o tempo desde o parto e a trajetória dos sintomas, não apenas sua presença no momento da consulta.
O profissional de lactação não deve confirmar ou excluir restos placentários por palpação, aparência do leite ou resposta a técnicas de amamentação. A investigação pode envolver exame clínico, exames laboratoriais e imagem, conforme decisão da equipe obstétrica.
Frente do binômio: avaliar ingestão e proteção da lactação
Observe uma mamada completa sempre que possível. Verifique se há abertura ampla da boca, vedação, sucção coordenada, pausas para deglutição, conforto materno e transferência efetiva. Uma pega aparentemente adequada não garante ingestão suficiente; o comportamento do bebê, as eliminações e a evolução ponderal também importam.
Se o bebê não mama de forma eficaz ou se há separação temporária, oriente a manutenção da remoção de leite por ordenha manual e/ou bomba, de acordo com a condição materna, a disponibilidade de equipamento e o plano definido pela equipe. A ABM recomenda que, quando a remoção frequente for necessária, a mãe receba orientação prática para ordenha e para preservar a produção.[1]
O objetivo não é aumentar a frequência de forma automática e desorganizada. É remover leite de maneira eficaz, corrigir a causa da transferência insuficiente e acompanhar a resposta. Dor intensa, exaustão, trauma no parto e ansiedade também podem dificultar a amamentação e precisam ser acolhidos sem serem usados para explicar, sozinhos, sinais obstétricos de alerta.
Para aprofundar a avaliação de baixa produção em profissionais, consulte o conteúdo sobre baixa produção de leite e lactação complexa. Em situações de decisão clínica, materiais de prática clínica em amamentação podem apoiar a organização do atendimento, sem substituir a avaliação individual.
Limites e encaminhamento
O encaminhamento obstétrico deve ser imediato quando há sangramento intenso ou em piora, sintomas de choque, dor abdominal intensa, febre com calafrios, secreção vaginal com odor fétido ou comprometimento do estado geral. Esses sinais podem representar hemorragia, infecção ou outra complicação que não pertence ao escopo exclusivo da consultoria em lactação.[6]
Mesmo sem instabilidade, a ausência de sinais de lactogênese após cerca de 72 horas, especialmente quando acompanhada de história de placenta incompleta, extração manual, sangramento persistente ou dor, justifica comunicação com obstetra ou serviço de referência. O encaminhamento não deve ser condicionado à falha de várias tentativas de manejo da mamada.
Ao encaminhar, forneça informações objetivas: data e tipo do parto, idade do recém-nascido em horas ou dias, relato sobre a saída da placenta, volume e evolução do sangramento, temperatura, dor, medicamentos, frequência das mamadas, ordenhas realizadas, observação da transferência, peso e eliminações do bebê. Isso reduz atrasos e evita que a dificuldade de amamentação seja tratada sem considerar a saúde materna.
A suplementação, quando indicada por avaliação clínica do recém-nascido, deve ser planejada de modo a alimentar o bebê e proteger a produção de leite. Não se deve prescrever volume, método ou substância de forma padronizada sem avaliar a díade e a indicação médica correspondente.[5]
Para equipes que acompanham recém-nascidos vulneráveis ou quadros de maior complexidade, o conteúdo sobre neonatologia, lactação e casos complexos pode complementar a formação clínica.
Acompanhamento após o encaminhamento
O encaminhamento não encerra o cuidado em lactação. Enquanto a investigação obstétrica prossegue, acompanhe a segurança alimentar do recém-nascido, a hidratação, o peso, a frequência das mamadas, a ordenha e a tolerância materna ao plano proposto.
Após o tratamento da causa obstétrica, a produção pode não se normalizar imediatamente. A resposta dependerá do tempo de evolução, da quantidade de tecido funcional remanescente, da frequência de remoção de leite, da saúde materna e das condições do bebê. Portanto, o seguimento deve definir indicadores observáveis e prazo para reavaliação.
Combine com a família quando procurar atendimento novamente, quem será o profissional de referência e quais mudanças devem ser comunicadas. Também avalie o impacto emocional da experiência: medo, culpa, frustração e sensação de falha podem comprometer a adesão e a confiança. Acolher não significa minimizar o risco; significa oferecer informação clara, decisões compartilhadas dentro do escopo e continuidade.
Perguntas frequentes sobre retenção placentária e descida do leite
Quando devo me preocupar com a descida do leite?
A ausência de sinais de lactogênese II após aproximadamente 72 horas merece avaliação, principalmente se o bebê apresenta ingestão insuficiente ou se existem fatores de risco maternos. A preocupação é maior quando o atraso vem acompanhado de sangramento, dor, febre ou história de placenta incompleta.[1,5]
A retenção placentária sempre causa baixa produção de leite?
Não. A retenção placentária é um possível fator associado à lactogênese atrasada, mas baixa produção também pode decorrer de transferência ineficaz, remoção pouco frequente, separação da díade, condições maternas, medicamentos ou fatores do recém-nascido. É necessária avaliação individual.[1,2]
Como saber se a placenta retida está interferindo na amamentação?
Não é possível confirmar essa interferência apenas pela quantidade de leite ordenhada ou pela observação das mamas. A suspeita aumenta quando há lactogênese muito atrasada junto a sangramento persistente, dor uterina, febre, odor desagradável dos lóquios ou relato de placenta incompleta. A confirmação depende de avaliação obstétrica.[3,6]
Devo orientar apenas mais mamadas enquanto aguardo avaliação?
Não quando há sinais de alerta maternos. Sangramento intenso, febre, dor importante, tontura ou mal-estar exigem encaminhamento médico imediato. Na ausência desses sinais, é possível apoiar mamadas eficazes e remoção de leite, acompanhando também peso, hidratação e eliminações do bebê.[5,7]
Quando o encaminhamento para obstetra e profissional de lactação deve ocorrer?
O obstetra deve ser acionado diante de suspeita de retenção, sangramento anormal, dor, febre ou deterioração clínica. O profissional de lactação deve avaliar a mamada, a transferência e a proteção da produção em paralelo. Quando há risco para mãe ou bebê, os dois acompanhamentos são complementares, não excludentes.
Fontes e referências
- Academy of Breastfeeding Medicine. Clinical Protocol #7: Model Maternity Policy Supportive of Breastfeeding, 2025. Disponível em: https://www.bfmed.org/assets/DOCUMENTS/PROTOCOLS/ModelMaternityPolicyFinal25.pdf.
- Academy of Breastfeeding Medicine. Clinical Protocol #2: Guidelines for Birth Hospitalization Discharge of Breastfeeding Dyads, revised 2022. Disponível em: https://www.breastfeedingmedicine.com/assets/DOCUMENTS/PROTOCOLS/ABM%20Protocol%20%232bfm.2022.29203.aeh.pdf.
- Anderson AM. Disruption of lactogenesis by retained placental fragments. Journal of Human Lactation. 2001;17(2):142-144. doi:10.1177/089033440101700210. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11847829/.
- Neville MC, et al. Physiology and Endocrine Changes Underlying Human Lactogenesis II. The Journal of Nutrition. 2023. Disponível em: https://jn.nutrition.org/article/S0022-3166%2822%2914522-0/fulltext.
- Academy of Breastfeeding Medicine. Clinical Protocol #3: Supplementary Feedings in the Healthy Term Breastfed Neonate, revised 2017. Disponível em: https://www.bfmed.org/assets/DOCUMENTS/PROTOCOLS/3-supplementation-protocol-english.pdf.
- American College of Obstetricians and Gynecologists. 3 Conditions to Watch for After Childbirth. Disponível em: https://www.acog.org/womens-health/experts-and-stories/the-latest/3-conditions-to-watch-for-after-childbirth.
- National Institute for Health and Care Excellence. Postnatal care: recommendations, NG194. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng194/chapter/Recommendations.