Anquiloglossia: avaliação funcional antes de discutir frenotomia

A avaliação funcional deve vir antes da discussão sobre frenotomia porque a presença de um frênulo lingual restritivo, isoladamente, não demonstra que ele esteja causando dificuldade para amamentar. O raciocínio clínico precisa conectar três elementos: achados anatômicos, impacto funcional observado na mamada e resposta insuficiente às medidas de suporte à dupla mãe-bebê. [1,2]

Em neonatologia, essa distinção é especialmente importante. Dor mamilar, pega instável, mamadas longas ou ganho ponderal insuficiente são sinais relevantes, mas não são específicos de anquiloglossia. Podem ocorrer por posicionamento inadequado, ingurgitamento, prematuridade, sonolência, alterações respiratórias, baixa produção de leite, dificuldades de coordenação sucção-deglutição-respiração ou condições clínicas do bebê. [1,3]

O que a avaliação funcional procura responder

Anquiloglossia é uma condição congênita em que o frênulo lingual limita a mobilidade da língua. A pergunta clínica, porém, não é apenas “o bebê tem frênulo alterado?”. É preciso investigar: “a restrição está interferindo na alimentação deste bebê, nesta dupla, neste momento?”. [1,2]

Na mamada, a língua precisa participar da apreensão da mama, da manutenção da pega, da formação do sulco e da coordenação necessária para a retirada de leite. Uma restrição pode dificultar a extensão ou a elevação da língua, mas a repercussão varia conforme a anatomia oral, o tônus, a maturidade neurológica, o fluxo de leite, o formato da mama e a capacidade de adaptação da dupla. [1,3]

Por isso, uma classificação visual ou um escore não deve substituir a observação clínica. As ferramentas podem organizar o exame, melhorar a comunicação entre profissionais e registrar mudanças ao longo do tempo, mas não estabelecem sozinhas a indicação de procedimento. A literatura ainda descreve falta de critérios diagnósticos uniformes e heterogeneidade entre instrumentos e desfechos. [1,4]

Componentes essenciais da avaliação

História da dupla e contexto neonatal

Comece reconstruindo a trajetória da alimentação desde o nascimento. Para o bebê, considere idade gestacional, peso ao nascer, evolução ponderal, necessidade de cuidados intensivos, intercorrências respiratórias ou metabólicas, sonolência, uso de complementação e número de micções e evacuações conforme o contexto clínico.

Para a pessoa que amamenta, investigue dor, trauma mamilar, sensação de esvaziamento incompleto, duração e frequência das mamadas, percepção de deglutição e experiências anteriores. Também é útil conhecer cirurgias mamárias, anatomia mamilar, produção de leite e possíveis fatores que alterem a transferência de leite.

O objetivo não é transformar um sintoma em diagnóstico, mas identificar a combinação de sinais que justifica uma avaliação mais aprofundada e um plano de cuidado individualizado. [1,3]

Exame oral e mobilidade da língua

O exame deve ser realizado com o bebê clinicamente estável, respeitando sinais de estresse e utilizando técnica apropriada. Observe a aparência do frênulo, sua inserção e a forma da língua em repouso e durante a movimentação. Avalie, quando possível, a capacidade de protrair a língua além da crista alveolar inferior, elevar a língua em direção ao palato e realizar movimentos coordenados.

A palpação cuidadosa pode complementar a inspeção, especialmente quando a alteração não é evidente visualmente. Ainda assim, termos como “frênulo posterior” não devem ser usados como justificativa isolada para cirurgia, pois há controvérsia sobre sua definição e pouca uniformidade entre avaliadores. [1]

Também examine mandíbula, palato, face e vias aéreas superiores. Micrognatia, retrognatia, fissuras, alterações neuromusculares ou outras características dismórficas podem modificar a mecânica da mamada e exigir investigação além do frênulo. [1]

Observação direta da mamada

A observação da mamada é o centro da avaliação funcional. Registre a posição do bebê, o alinhamento corporal, a abertura da boca, a profundidade da pega, a estabilidade da sucção, a presença de estalos, a coordenação com a deglutição e a necessidade de pausas frequentes.

Observe também a pessoa que amamenta: dor desde o início ou durante toda a mamada, compressão ou deformação do mamilo após a sucção, trauma, tensão corporal e necessidade de reposicionar repetidamente o bebê. A presença de deglutições audíveis e a mudança da mama antes e depois da mamada ajudam a compor o raciocínio, mas não devem ser interpretadas de modo isolado.

Quando disponível e clinicamente indicado, o peso antes e depois da mamada pode contribuir para estimar a transferência de leite. Esse dado precisa ser interpretado junto do crescimento ao longo do tempo, da condição clínica, da frequência das mamadas e de outras formas de ingestão. Uma única medida não explica toda a alimentação do bebê. [1,3]

Diferencial de baixa transferência e ganho inadequado

Antes de atribuir o problema à anquiloglossia, revise causas frequentes de mamada ineficaz. Entre elas estão pega superficial sem restrição lingual relevante, baixa oferta de leite, atraso na lactogênese, prematuridade, icterícia com sonolência, infecção, cardiopatia, alterações neurológicas, problemas anatômicos e dificuldades de coordenação sucção-deglutição-respiração. [1]

A avaliação da produção de leite também faz parte do cuidado. Em situações de baixa produção ou transferência reduzida, a atuação clínica deve evitar a simplificação “é a língua”. Um material específico sobre baixa produção de leite para profissionais pode complementar esse raciocínio quando a oferta de leite é uma das hipóteses envolvidas.

Da avaliação à decisão clínica

A indicação de frenotomia deve ser discutida quando há uma combinação consistente de:

  • frênulo com restrição funcional identificada no exame;
  • dificuldade de amamentação observada ou bem documentada;
  • dor ou trauma mamilar persistente, quando relacionada à mecânica da mamada;
  • transferência de leite insuficiente ou crescimento aquém do esperado;
  • tentativa adequada de suporte à amamentação, sem melhora suficiente;
  • possibilidade de acompanhamento e reavaliação após a decisão.

Essa lista não é um escore de indicação. Ela organiza a conversa clínica e ajuda a evitar dois extremos: operar todo bebê com frênulo visivelmente alterado ou esperar diante de sinais importantes de ingestão insuficiente.

A evidência sugere que a frenotomia pode reduzir dor mamilar e melhorar alguns desfechos de amamentação em duplas selecionadas, mas os estudos apresentam limitações metodológicas, amostras pequenas ou desfechos de curto prazo. Portanto, o procedimento não deve ser apresentado como garantia de pega adequada, ganho de peso ou continuidade da amamentação. [4,5]

Quando a decisão é considerada, a família precisa receber informações equilibradas sobre alternativas, benefícios esperados, incertezas, riscos, analgesia, sangramento, cuidados posteriores e necessidade de seguimento. O procedimento deve ser realizado por profissional habilitado e treinado para o atendimento de recém-nascidos e lactentes, dentro das normas locais e institucionais. [1,2]

Não há base suficiente para indicar frenotomia com a finalidade de prevenir problemas futuros de fala ou apneia obstrutiva em bebês que não apresentam repercussão funcional atual. Da mesma forma, não se deve transformar frênulos labiais ou bucais normais em indicação cirúrgica para melhorar a amamentação. [1]

Aplicação prática: um registro clínico útil

Um registro objetivo favorece a continuidade do cuidado. Pode conter:

  1. queixa principal e tempo de evolução;
  2. idade gestacional, peso e trajetória de crescimento;
  3. descrição da dor e do trauma mamilar;
  4. achados do exame oral e da mobilidade lingual;
  5. observação da mamada, incluindo pega, sucção e deglutição;
  6. dados de transferência, quando obtidos com método adequado;
  7. intervenções realizadas e resposta observada;
  8. plano de reavaliação e critérios de encaminhamento.

Na prática, a primeira intervenção costuma ser corrigir fatores modificáveis: posição, alinhamento, manejo da mama, apoio à extração de leite quando necessário e proteção da ingestão do bebê. A resposta a essas medidas é parte da avaliação. Se a mamada melhora de modo consistente, a hipótese de que o frênulo seja o principal fator causal perde força. Se a dificuldade persiste apesar do suporte bem executado, a discussão multidisciplinar pode se tornar mais pertinente. [1,2]

Para profissionais que acompanham situações de maior complexidade, o conteúdo de neonatologia, lactação e casos complexos pode apoiar a integração entre condição clínica, alimentação e seguimento.

Limites e encaminhamento

A avaliação do frênulo não substitui o exame pediátrico completo. Encaminhe ou acelere a avaliação médica quando houver perda ponderal relevante, sinais de desidratação, redução importante de eliminações, letargia, dificuldade respiratória, cianose, engasgos recorrentes, vômitos biliosos, febre ou incapacidade de manter ingestão adequada.

Casos com prematuridade, alterações neurológicas, síndromes, malformações craniofaciais, cardiopatias ou suspeita de disfagia exigem abordagem multidisciplinar. O profissional que acompanha a lactação deve reconhecer os próprios limites de escopo e articular o cuidado com pediatria, neonatologia, fonoaudiologia, odontologia, otorrinolaringologia ou cirurgia, conforme a necessidade clínica.

No Brasil, a Nota Técnica Conjunta nº 52/2023 orienta a identificação da anquiloglossia em recém-nascidos e o fluxo de atenção no SUS. A triagem ou o registro de um achado anatômico, contudo, não equivale à indicação automática de frenotomia; a decisão deve considerar função, sintomas, evolução e resposta ao suporte. [2]

Acompanhamento depois da avaliação

Acompanhamento não é uma etapa opcional. Bebês com possível anquiloglossia sintomática precisam de suporte precoce, monitoramento do peso e reavaliação da mamada. O intervalo depende da gravidade, da idade, da ingestão e do risco clínico. Em situações de ganho inadequado ou sinais de baixa ingestão, a revisão deve ser mais imediata.

Após uma decisão não cirúrgica, registre quais ajustes foram feitos, qual resposta se espera e em que prazo a dupla será reavaliada. Após a frenotomia, o seguimento deve verificar dor, sangramento, alimentação, mobilidade observada, transferência de leite e crescimento. A ausência de melhora deve levar à revisão do diagnóstico e à busca de outros fatores, não automaticamente a um novo procedimento.

Exercícios de alongamento pós-operatório não devem ser recomendados como rotina sem base em protocolo institucional ou evidência aplicável. A AAP destaca que essas práticas não têm suporte suficiente e que o cuidado pós-procedimento deve ser orientado de forma baseada em evidências. [1]

Para aprofundar a construção de registros e decisões compartilhadas, conheça a prática clínica em amamentação para profissionais. O objetivo é transformar um achado anatômico em uma pergunta clínica bem formulada: qual é o problema funcional, quais medidas já foram tentadas e qual resultado precisa ser acompanhado?

Perguntas frequentes sobre anquiloglossia e avaliação funcional

O que é anquiloglossia?

É uma condição congênita em que o frênulo lingual restringe a mobilidade da língua. Ela só deve ser considerada clinicamente relevante quando há repercussão funcional, especialmente dificuldade de alimentação que persiste apesar de suporte adequado. [1,2]

Dor mamilar indica frenotomia?

Não. A dor é um sinal importante, mas é comum no início da amamentação e pode ter várias causas. Deve ser relacionada à observação da pega, da sucção, do trauma mamilar, da transferência de leite e da resposta às correções realizadas. [1]

Um protocolo ou escore confirma a necessidade de cirurgia?

Não. Ferramentas ajudam a padronizar o registro do exame, mas não substituem a avaliação da mamada nem a análise clínica da dupla. A decisão deve integrar anatomia, função, sintomas, crescimento e evolução. [1,2]

O que fazer quando o bebê tem frênulo alterado, mas mama bem?

Em geral, não há indicação de intervenção apenas pelo aspecto anatômico. É apropriado manter acompanhamento clínico, observar crescimento e orientar a família sobre sinais que justificariam nova avaliação. [1]

A frenotomia previne problemas de fala no futuro?

Não há evidência suficiente para indicar o procedimento em neonatos com a finalidade de prevenir alterações futuras de fala. A indicação, quando considerada, deve estar vinculada a dificuldade atual de amamentação com repercussão funcional e resposta insuficiente ao suporte. [1,4]

Fontes e referências

  1. Thomas J, Bunik M, Holmes A, et al. Identification and Management of Ankyloglossia and Its Effect on Breastfeeding in Infants: Clinical Report. Pediatrics. 2024;154(2):e2024067605. doi:10.1542/peds.2024-067605. Disponível em: https://publications.aap.org/pediatrics/article/154/2/e2024067605/198022/Identification-and-Management-of-Ankyloglossia-and.
  2. Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 52/2023-CACRIAD/CGACI/DGCI/SAPS/MS e CGSB/DESCO/SAPS/MS. Avaliação do frênulo lingual em recém-nascidos. 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2023/nota-tecnica-conjunta-no-52-2023-cacriad-cgaci-dgci-saps-ms-e-cgsb-desco-saps-ms.
  3. Academy of Breastfeeding Medicine. Academy of Breastfeeding Medicine Position Statement on Ankyloglossia in Breastfeeding Dyads. Breastfeed Med. 2021;16(4):278-281. doi:10.1089/bfm.2021.29179.yjf. Disponível em: https://www.bfmed.org/assets/Anklyloglossia%20position%20statement%202021.pdf.
  4. Francis DO, Krishnaswami S, McPheeters M. Treatment of Ankyloglossia and Breastfeeding Outcomes: A Systematic Review. Pediatrics. 2015;135(6):e1458-e1466. doi:10.1542/peds.2015-0658. Disponível em: https://doi.org/10.1542/peds.2015-0658.
  5. Cordray H, Raol N, Mahendran GN, et al. Quantitative impact of frenotomy on breastfeeding: a systematic review and meta-analysis. Pediatr Res. 2024;95(1):34-42. doi:10.1038/s41390-023-02784-y. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41390-023-02784-y.


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