A fotobiomodulação pode ser considerada como recurso adjuvante após a frenotomia, principalmente quando há dor, edema ou preocupação com a reparação tecidual. No entanto, a pergunta clínica não deve ser apenas “qual protocolo de laser após frenotomia usar?”. Antes disso, é necessário verificar se a frenotomia foi bem indicada, se a amamentação foi reavaliada e se há sinais que exigem avaliação médica ou odontológica. Até o momento, não há evidência robusta de que a fotobiomodulação, aplicada rotineiramente após a frenotomia, melhore de forma consistente os resultados de amamentação a longo prazo. [1,2]
Essa distinção protege o binômio de duas simplificações: atribuir toda dificuldade de amamentação ao frênulo e apresentar o laser como garantia de cicatrização, analgesia ou manutenção do aleitamento. A fotobiomodulação pode integrar um plano individualizado, mas não substitui a avaliação da mamada, o manejo da dor, a observação do ganho ponderal nem o acompanhamento do procedimento.
O que exatamente está sendo proposto?
Fotobiomodulação é a aplicação terapêutica de luz em determinados comprimentos de onda e parâmetros, com a finalidade de produzir efeitos biológicos locais, como modulação da dor e dos processos de reparação. Seus efeitos dependem da dose, da potência, do tempo, da área tratada, do modo de aplicação e das características do tecido. Portanto, “laser” não descreve, por si só, um tratamento completo. [3,4]
Também é importante diferenciar duas intervenções que frequentemente são confundidas:
- Laser usado para realizar a frenotomia: é o instrumento cirúrgico empregado para seccionar ou remover o frênulo.
- Fotobiomodulação após a frenotomia: é uma intervenção terapêutica posterior, geralmente com parâmetros de baixa intensidade, que busca auxiliar no controle da dor ou na reparação.
O fato de a frenotomia ter sido realizada com laser não significa que uma sessão adicional de fotobiomodulação esteja automaticamente indicada. Da mesma forma, a escolha do laser como instrumento cirúrgico não demonstrou superioridade consistente sobre a tesoura em lactentes pequenos. [1]
A primeira pergunta: a frenotomia foi indicada por uma alteração funcional?
O ponto de partida é confirmar se havia anquiloglossia sintomática: uma restrição de mobilidade lingual associada a dificuldade de amamentação que não melhorou após suporte adequado. A presença isolada de um frênulo visível, a aparência da língua ou o uso de termos como “frênulo posterior” não devem determinar a conduta sem correlação funcional. [1]
A avaliação precisa considerar o binômio. Na pessoa que amamenta, investigue dor, fissuras, trauma mamilar, sensação de esvaziamento insuficiente e impacto emocional. No bebê, observe pega, vedação, coordenação sucção-deglutição-respiração, transferência de leite, fadiga, sinais de compensação e evolução do peso. Uma avaliação estruturada da mamada é essencial porque dor e baixa eficiência podem ter múltiplas causas. [1,2]
Quando a indicação inicial é incerta, aplicar laser depois do procedimento não corrige um problema de raciocínio clínico. O profissional deve retornar à pergunta funcional: o que se esperava melhorar, o que de fato mudou e qual fator ainda está limitando a amamentação?
A segunda pergunta: qual desfecho se pretende modificar?
A fotobiomodulação não deve ser indicada com um objetivo genérico, como “acelerar a recuperação”. É melhor definir um desfecho observável e um prazo de reavaliação. Entre as possibilidades estão:
- redução da dor durante a mamada;
- melhora da tolerância ao contato e à manipulação;
- evolução do aspecto local da ferida;
- redução de edema ou desconforto percebido;
- melhora funcional da mamada após o procedimento.
Esses desfechos não são equivalentes. Uma ferida com aspecto satisfatório não garante pega eficiente. A redução da dor materna não prova que a transferência de leite esteja adequada. E uma melhora imediata após a frenotomia pode refletir o procedimento, o suporte à amamentação, a adaptação do bebê ou a combinação desses fatores.
Os estudos sobre fotobiomodulação em lactantes concentram-se principalmente em dor e lesões mamilares, não em feridas de frenotomia. Há ensaios clínicos com resultados diferentes: um protocolo de três aplicações apresentou redução de dor em mulheres com lesões mamilares, enquanto uma única aplicação não foi superior ao controle e esteve associada a relatos de formigamento ou pontadas em parte das participantes. [3,4] Uma revisão sistemática mais recente considerou a fotobiomodulação promissora para lesões mamilares, mas classificou a certeza da evidência como baixa e destacou a necessidade de protocolos mais padronizados. [5]
Assim, é possível usar esse conhecimento como suporte indireto para discutir analgesia e reparação, mas não como prova de eficácia específica após frenotomia.
A terceira pergunta: há evidência para uso rotineiro após frenotomia?
Até o momento, a resposta mais precisa é: não há base suficiente para recomendar fotobiomodulação de forma automática para todos os bebês submetidos à frenotomia. A literatura sobre o procedimento avalia principalmente dor materna, pega, função oral, amamentação e complicações. Já a literatura sobre fotobiomodulação em lactação avalia sobretudo traumas mamilares. A interseção entre os dois temas ainda é limitada. [1,2,5]
Isso não significa que o recurso nunca possa ser considerado. Significa que a decisão deve ser individualizada, com indicação clara, documentação do achado clínico, parâmetros definidos por profissional habilitado e avaliação de resposta. O profissional deve evitar apresentar a intervenção como necessária, capaz de prevenir reatamento ou suficiente para assegurar aleitamento exclusivo.
A própria evidência sobre a frenotomia exige cautela. Revisões de ensaios clínicos sugerem redução de curto prazo da dor mamilar materna, mas não demonstram de modo consistente benefícios duradouros sobre a amamentação. Os estudos são pequenos, heterogêneos e apresentam limitações metodológicas. [1,2]
Aplicação prática: como organizar o raciocínio clínico
Uma abordagem segura pode seguir cinco etapas:
1. Reavaliar o motivo do procedimento
Revise a avaliação prévia e confirme quais alterações funcionais permanecem. Pergunte à família o que mudou desde a frenotomia e quais expectativas foram estabelecidas. Se a dificuldade original não estava bem caracterizada, evite acrescentar novos procedimentos sem nova avaliação.
2. Examinar o local e a condição geral do bebê
Observe sangramento, edema, secreção, odor, coloração, integridade dos tecidos e tolerância ao manuseio. Relacione o exame local ao estado geral, à aceitação das mamadas, à hidratação e à evolução ponderal. O exame deve respeitar o escopo profissional e os limites de atuação de cada categoria.
3. Avaliar a mamada antes de atribuir o sintoma à ferida
Observe uma mamada, quando possível. Analise posição, pega, profundidade, vedação, ritmo, pausas, sinais de dor e comportamento do bebê. Na pessoa que amamenta, registre a intensidade e o padrão da dor, além da localização. A fotobiomodulação pode ser apenas uma parte do plano; ajustes de manejo podem produzir maior impacto funcional.
4. Definir indicação, objetivo e critério de parada
Se o recurso for considerado, documente o objetivo clínico, a área tratada, o equipamento, os parâmetros e a resposta observada. Não transfira automaticamente protocolos usados em lesões mamilares para a cavidade oral de um lactente. Comprimento de onda, energia, densidade de energia, modo de emissão e intervalo entre sessões precisam ser definidos conforme o tecido, o equipamento e a formação do profissional.
5. Reavaliar em vez de repetir por rotina
A continuidade deve depender da resposta clínica, e não de uma quantidade fixa de sessões. Uma nova aplicação sem benefício mensurável merece revisão da hipótese diagnóstica e do plano de cuidado. Não há uma quantidade universal de sessões estabelecida para o período pós-frenotomia; números como “três a seis sessões” não devem ser tratados como regra geral sem respaldo no caso e no protocolo utilizado.
Para aprofundar a organização do cuidado, consulte o conteúdo sobre laserterapia na amamentação para profissionais e integre a decisão à prática clínica em amamentação.
Segurança, limites e encaminhamento
A fotobiomodulação deve ser realizada por profissional capacitado, com equipamento adequado, proteção ocular quando aplicável, controle de parâmetros e registro clínico. A segurança depende da indicação, da técnica e do contexto; não é correto transformar a expressão “baixa potência” em sinônimo de risco inexistente.
Antes da aplicação, considere histórico clínico, uso de medicamentos fotossensibilizantes, lesões suspeitas, condições que alterem a cicatrização e a possibilidade de infecção. Situações oncológicas ou outras condições clínicas complexas exigem avaliação criteriosa e, quando necessário, articulação com o profissional responsável pelo acompanhamento do bebê.
Encaminhe ou reencaminhe para avaliação médica, odontológica ou multiprofissional diante de:
- sangramento persistente ou recorrente;
- febre, secreção purulenta, odor incomum ou piora do edema;
- dor intensa, progressiva ou não compatível com a evolução esperada;
- recusa persistente das mamadas, sinais de desidratação ou sonolência excessiva;
- perda ou ausência de ganho ponderal adequado;
- suspeita de complicação anatômica, lesão térmica ou dificuldade respiratória.
A orientação pós-procedimento também precisa ser baseada em evidências. Exercícios de abertura vigorosa da ferida ou manipulações dolorosas para “evitar reatamento” não têm suporte consistente e podem favorecer aversão oral. O cuidado deve ser explicado à família pelo profissional que realizou o procedimento, com acesso claro para dúvidas e intercorrências. [1]
Acompanhamento: o que deve ser medido?
O acompanhamento deve ocorrer cedo e ser proporcional ao problema. Não basta perguntar se “está melhor”. Registre indicadores comparáveis: dor materna, conforto na pega, duração e frequência das mamadas, sinais de transferência de leite, necessidade de complementação quando pertinente, comportamento do bebê e trajetória de peso.
A avaliação do local deve ser feita com cautela, sem transformar a aparência da ferida no único marcador de sucesso. O objetivo clínico é a recuperação funcional do binômio, com alimentação segura e amamentação possível, confortável e sustentável dentro das escolhas da família.
Se houver melhora da dor, mas persistir baixa transferência de leite, investigue a mamada. Se a ferida parecer adequada, mas o bebê continuar com dificuldade, reavalie função oral, coordenação, tônus, fluxo de leite e fatores maternos. Se não houver melhora, interrompa a lógica de repetir aplicações e revise indicação, técnica, diagnóstico e necessidade de encaminhamento.
Perguntas frequentes sobre laser após frenotomia
A fotobiomodulação é obrigatória depois da frenotomia?
Não. Ela não deve ser considerada obrigatória ou automática. Pode ser avaliada como recurso adjuvante em situações selecionadas, mas a evidência específica para uso rotineiro após frenotomia ainda é insuficiente. [1,2,5]
O laser usado na frenotomia já substitui a fotobiomodulação?
Não necessariamente. O laser cirúrgico e a fotobiomodulação pós-procedimento são intervenções diferentes, com objetivos e parâmetros distintos. A escolha do instrumento cirúrgico não estabelece, por si só, a necessidade de uma aplicação terapêutica posterior. [1]
Quantas sessões de laser após frenotomia são necessárias?
Não há um número universal validado para todos os casos. A necessidade, o intervalo e a continuidade devem depender do objetivo clínico, da resposta observada, do equipamento e do protocolo profissional. Evite tratar uma faixa fixa de sessões como regra.
A fotobiomodulação garante melhor amamentação?
Não. Ela pode ser considerada para dor ou reparação, mas não garante melhora da pega, transferência de leite ou manutenção do aleitamento. Esses resultados dependem de avaliação e manejo do binômio, além da evolução do bebê. [1,2,5]
Quando encaminhar após a frenotomia?
Encaminhe diante de sangramento persistente, sinais de infecção, piora da dor ou do edema, recusa das mamadas, sinais de desidratação, evolução ponderal inadequada, suspeita de lesão ou ausência de melhora funcional. A persistência do problema é motivo para revisar o diagnóstico e o plano, não apenas para repetir o laser.
Fontes e referências
- Thomas J, Bunik M, Holmes A, et al. Identification and Management of Ankyloglossia and Its Effect on Breastfeeding in Infants: Clinical Report. Pediatrics. 2024;154(2):e2024067605. doi:10.1542/peds.2024-067605. Disponível em: https://publications.aap.org/pediatrics/article/154/2/e2024067605/198022/Identification-and-Management-of-Ankyloglossia-and.
- O’Shea JE, Foster JP, O’Donnell CP, et al. Frenotomy for tongue-tie in newborn infants. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2017;3:CD011065. doi:10.1002/14651858.CD011065.pub2. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28284020/.
- Coca KP, Marcacine KO, Gamba MA, Corrêa L, Aranha ACC, Abrão ACFV. Efficacy of low-level laser therapy in relieving nipple pain in breastfeeding women: a triple-blind, randomized, controlled trial. Pain Management Nursing. 2016;17(4):281-289. doi:10.1016/j.pmn.2016.05.003. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27363734/.
- Camargo BTS, Coca KP, Amir LH, et al. The effect of a single irradiation of low-level laser on nipple pain in breastfeeding women: a randomized controlled trial. Lasers in Medical Science. 2020;35(1):63-69. doi:10.1007/s10103-019-02786-5. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31030379/.
- Alves RO, Ragghianti MHF, Nunes LP, et al. Photobiomodulation as a promising approach in the management of nipple lesions during breastfeeding: a systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. Lasers in Medical Science. 2025;40(1):276. doi:10.1007/s10103-025-04531-7. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40500396/.