Extração de colostro para recém-nascidos internados

A extração de colostro para recém-nascidos internados deve começar o mais cedo possível, com apoio individualizado, higiene rigorosa e escolha da técnica conforme a condição clínica da mãe, a resposta das mamas e o plano alimentar do bebê. Quando o recém-nascido ainda não consegue mamar diretamente, o leite da própria mãe deve ser oferecido assim que estiver disponível, de acordo com a prescrição e o protocolo da unidade. [1]

Na prática, o objetivo não é apenas obter um volume imediato. É preservar a produção láctea, reduzir o risco de trauma mamário, manter a participação da mãe no cuidado e garantir que cada gota coletada seja identificada, acondicionada e encaminhada com segurança.

Por que o colostro importa na internação neonatal

O colostro é produzido nos primeiros dias após o parto e apresenta composição distinta do leite maduro, com proteínas, fatores imunológicos e componentes bioativos relevantes para a adaptação do recém-nascido. Em prematuros e bebês de baixo peso, o leite da própria mãe é recomendado pela Organização Mundial da Saúde, inclusive quando o bebê ainda depende de alimentação por sonda ou outro método alternativo. [1]

A internação, porém, modifica o contexto fisiológico da lactação. A separação mãe-bebê, o estresse, a dor, a recuperação do parto, a doença materna e a impossibilidade de sucção efetiva podem reduzir a frequência de estímulo e dificultar a ejeção. Por isso, a equipe deve avaliar a extração como parte do cuidado neonatal, e não como uma tarefa delegada exclusivamente à puérpera.

O primeiro raciocínio clínico é separar duas perguntas:

  • O bebê pode receber o colostro agora, conforme estabilidade e prescrição?
  • A mãe está conseguindo remover leite de modo frequente, confortável e tecnicamente adequado?

A resposta para uma pergunta não substitui a avaliação da outra.

Preparação: segurança antes da técnica

Antes de ensinar a extração de colostro na UTI neonatal, confirme a identificação da mãe e do recém-nascido, o plano de oferta definido pela equipe e o fluxo institucional para coleta, rotulagem, transporte e armazenamento. Em unidades com banco ou posto de coleta de leite humano, o procedimento deve seguir as normas locais e os requisitos sanitários aplicáveis.

A higiene das mãos é a medida central. A mãe deve higienizar as mãos antes de tocar nas mamas, no recipiente ou nos acessórios. Os profissionais também devem realizar higiene das mãos antes e depois de auxiliar a ordenha, conforme a rotina de controle de infecção do serviço. [3]

O recipiente, a tampa e os acessórios precisam ser compatíveis com o protocolo da instituição. “Esterilizar” não deve ser usado como orientação genérica quando o serviço possui um processo específico de limpeza, desinfecção ou esterilização. O mais seguro é demonstrar o fluxo adotado pela própria unidade e evitar que a família reutilize recipientes improvisados.

Também vale preparar o ambiente. Privacidade, posicionamento confortável, aquecimento, redução de interrupções e contato visual ou pele a pele, quando clinicamente possível, podem favorecer relaxamento e ejeção do leite. O contato pele a pele durante a expressão pode aumentar a resposta de ejeção e aproximar a extração do cuidado centrado na família. [2]

Extração manual: como orientar

Nos primeiros dias, especialmente quando há apenas pequenas gotas, a extração manual costuma ser uma estratégia útil porque permite trabalhar diretamente com a aréola e coletar o colostro em pequeno recipiente ou dispositivo definido pela unidade. Ela também ajuda a mãe a reconhecer a própria mama e a perceber que pouco volume não significa ausência de produção.

Oriente a mãe a:

  1. Higienizar as mãos e assumir uma posição confortável.
  2. Fazer movimentos leves de massagem na mama, sem apertar ou friccionar vigorosamente o tecido.
  3. Posicionar os dedos em formato de “C”, alguns centímetros atrás do mamilo, na região em que percebe maior compressibilidade da aréola.
  4. Comprimir suavemente para trás, em direção ao tórax, e depois aproximar os dedos, sem deslizar sobre a pele.
  5. Repetir o movimento em ritmo confortável, alternando as regiões da aréola para favorecer a drenagem de diferentes áreas.
  6. Coletar as gotas diretamente no recipiente indicado e interromper se houver dor, sangramento ou piora importante do desconforto.

O profissional deve observar a mão da mãe, não apenas explicar verbalmente. A compressão sobre o mamilo, o pinçamento forte, a fricção da pele e a pressão excessiva são sinais de que a técnica precisa ser reajustada. A extração eficaz não depende de força.

Quando há colostro em pequenas quantidades, o volume pode parecer insuficiente para justificar uma sessão. Ainda assim, a coleta pode ter valor para o bebê e para a manutenção do estímulo. O registro deve contemplar também a ocorrência de gotas, a tolerância materna e a evolução entre as sessões, não apenas mililitros.

Bomba de extração: quando considerar

A bomba manual ou elétrica pode ser necessária quando o bebê permanecerá sem sucção efetiva, quando a mãe não consegue remover leite manualmente, quando é preciso manter uma rotina de extração por período prolongado ou quando a avaliação profissional indica benefício. A escolha do equipamento não deve ser automática: considere disponibilidade, conforto, condição mamária, objetivo da extração e capacidade da mãe de utilizar e higienizar o sistema.

Nas primeiras horas e dias, a extração manual pode ser combinada com a bomba conforme o protocolo da unidade. A OMS orienta que mães de prematuros ou recém-nascidos de baixo peso sejam apoiadas para expressar leite com frequência, incluindo durante a noite, e que recebam treinamento para uso seguro e eficaz do equipamento. [2]

A equipe deve verificar:

  • tamanho e posicionamento do flange;
  • nível de sucção tolerado, sem perseguir a maior intensidade;
  • presença de dor, edema, fissura ou lesão;
  • montagem correta do kit;
  • limpeza e secagem dos componentes;
  • possibilidade de extração bilateral, quando apropriado e confortável;
  • registro do volume total em 24 horas e das intercorrências.

O tempo de sessão não deve ser transformado em meta rígida para todas as mulheres. A observação do fluxo, do conforto e da resposta da mama é mais útil do que insistir em uma duração fixa. Se o fluxo diminuir para gotas ocasionais, a sessão pode ser encerrada ou ajustada conforme o plano individual e a orientação do serviço. [2]

Frequência e leitura do volume

A frequência precisa ser pactuada com a mãe e alinhada ao plano da unidade. Para estabelecer e manter a produção quando o bebê não mama efetivamente, a referência da OMS é apoiar a expressão de 8 a 12 vezes em 24 horas, com pelo menos uma sessão noturna; também recomenda evitar intervalos muito longos no início. [2]

Esse intervalo de frequência não deve ser comunicado como uma prova de desempenho. A puérpera pode estar com dor, sob efeito de medicamentos, se recuperando de uma cirurgia ou enfrentando uma situação emocionalmente difícil. O papel do profissional é construir um plano viável, identificar barreiras e reavaliar rapidamente quando o volume cai.

O volume de colostro varia entre sessões. Não é adequado interpretar uma coleta pequena isoladamente como falha da lactação. Analise a tendência, a frequência das remoções, a técnica, o conforto, a evolução da lactogênese e os fatores maternos e neonatais que interferem no processo.

Coleta, identificação e armazenamento

Cada frasco deve ser identificado conforme o protocolo institucional, com os dados necessários para garantir rastreabilidade, compatibilidade mãe-bebê, data e horário da coleta e condições de armazenamento. A equipe deve conferir a identificação antes de encaminhar o leite à unidade neonatal.

O leite extraído deve ser entregue rapidamente ao fluxo definido pelo hospital. Evite deixar o recipiente em superfícies inadequadas, transportá-lo sem proteção ou misturá-lo a outro frasco sem autorização do serviço.

Os prazos dependem do tipo de leite, do equipamento, da temperatura monitorada e do destino do produto. A Anvisa estabelece, para leite humano ordenhado cru em bancos e postos de coleta, conservação refrigerada por até 12 horas a temperatura máxima de 5 °C e congelamento por até 15 dias a temperatura máxima de -3 °C, dentro das condições previstas na norma. [3] Esses prazos não devem ser automaticamente transferidos para qualquer geladeira doméstica ou rotina de UTI: siga o protocolo local e a cadeia de frio validada.

O leite descongelado não deve ser recongelado. Quando houver dúvida sobre tempo fora de refrigeração, temperatura, identificação, vazamento ou integridade do recipiente, o produto deve ser retido e avaliado pelo responsável técnico, sem decisão improvisada à beira-leito. [3]

Aplicação prática: um roteiro de observação

Na supervisão da extração, use um roteiro breve:

Comparação dos critérios apresentados nesta seção
O que observar Pergunta clínica Decisão possível
Mãe Está confortável e compreende o objetivo? Ajustar linguagem, posição e apoio
Mama Há dor, lesão, edema ou sangramento? Rever técnica e encaminhar para avaliação quando necessário
Remoção Há compressão eficaz sem força excessiva? Demonstrar novamente ou combinar técnicas
Equipamento O flange, a sucção e a montagem estão adequados? Corrigir acessórios e intensidade
Leite Está identificado e dentro do fluxo de conservação? Encaminhar, registrar ou bloquear para avaliação
Bebê Pode receber leite materno agora? Confirmar prescrição e método de oferta

O plano deve ser documentado de forma objetiva. Registre técnica utilizada, frequência combinada, volume quando disponível, dor, intercorrências, participação da mãe e próximo momento de reavaliação.

Para aprofundar o raciocínio em situações complexas, consulte o conteúdo sobre neonatologia, lactação e casos complexos e o material sobre baixa produção de leite para profissionais.

Limites e encaminhamento

Este tutorial não substitui a avaliação individual da mãe, do recém-nascido ou das condições clínicas que podem interferir na lactação. Mastite, dor persistente, trauma mamilar, sangramento, febre, sintomas sistêmicos, ingurgitamento importante, cirurgia mamária, uso de medicamentos ou sofrimento psíquico exigem avaliação conforme o escopo de cada profissional e os fluxos do serviço.

Encaminhe ou discuta com a equipe responsável quando a mãe não consegue realizar a extração apesar de orientação, quando há queda persistente do volume, sinais de lesão ou quando a rotina de coleta está comprometendo repouso, recuperação ou saúde mental. Também é necessário acionar o responsável técnico diante de falhas na cadeia de frio, identificação incompleta ou dúvida sobre a segurança do leite.

A equipe deve evitar duas mensagens igualmente prejudiciais: “qualquer quantidade é suficiente” como promessa, ou “se saiu pouco, não adianta” como desestímulo. O colostro pode ser valioso mesmo em pequenas quantidades, mas o cuidado precisa respeitar o estado clínico, a decisão da família e a capacidade real de sustentar a rotina.

Acompanhamento após a primeira orientação

A primeira demonstração não encerra o cuidado. Reavalie a mãe na sessão seguinte e verifique se ela conseguiu repetir os movimentos, se a dor mudou, se compreendeu a identificação do frasco e se sabe a quem recorrer durante a noite ou fora do horário do banco de leite.

No acompanhamento, observe a curva de produção, a frequência efetivamente alcançada, a transição da ordenha manual para a bomba quando indicada e a aproximação progressiva do bebê ao peito, quando houver estabilidade clínica e prontidão para sucção. O método canguru e a presença da família devem ser integrados ao plano sempre que forem seguros e possíveis. [1,2]

Perguntas frequentes sobre extração de colostro na UTI neonatal

Qual é a melhor técnica para extrair colostro?

Não existe uma técnica única para todas as mães. A extração manual costuma ser especialmente útil no início, quando há pequenas gotas, e pode ser combinada com bomba quando o bebê não suga efetivamente ou quando a rotina exige remoção frequente. A decisão deve considerar conforto, resposta da mama, equipamento disponível e orientação profissional. [2]

É normal sair apenas algumas gotas?

Sim. O colostro pode ser produzido em pequenos volumes, e uma coleta isolada não permite concluir que exista baixa produção. Avalie a tendência ao longo do tempo, a frequência das sessões, a técnica, a condição clínica materna e a evolução da lactogênese.

Como armazenar o colostro extraído?

O frasco deve ser identificado e encaminhado imediatamente ao fluxo definido pela UTI neonatal ou pelo banco de leite. Temperatura, prazo e possibilidade de congelamento dependem do protocolo institucional e do tipo de leite. Não use prazos domésticos por conta própria nem recongele leite descongelado. [3]

O que fazer se a extração causar dor?

Interrompa a pressão excessiva e observe a técnica, o posicionamento dos dedos, o flange e o nível de sucção. Dor persistente, lesão, sangramento ou sintomas sistêmicos exigem avaliação profissional e, quando indicado, encaminhamento médico.

Quando reavaliar a mãe que está extraindo leite para o bebê internado?

A reavaliação deve ocorrer ainda durante a internação e sempre que houver dor, dificuldade técnica, queda persistente do volume, mudança clínica da mãe ou do bebê, ou alteração do plano alimentar. A frequência e a forma do acompanhamento devem ser individualizadas e registradas pela equipe.

Fontes e referências

  1. World Health Organization. WHO recommendations for care of the preterm or low-birth-weight infant. Geneva: WHO; 2022. Disponível em: https://iris.who.int/bitstream/handle/10665/363697/9789240058262-eng.pdf.
  2. World Health Organization. Kangaroo mother care: a clinical practice guide. Geneva: WHO; 2025. Disponível em: https://cdn.who.int/media/docs/default-source/newborn-health/kangaroo_mother_care_a_clinical_practice_guide.pdf.
  3. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Banco de leite humano: funcionamento, prevenção e controle de riscos. Brasília: Anvisa; 2008, versão disponibilizada pelo Ministério da Saúde/Anvisa. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/manual-para-bancos-de-leite-humano.pdf/%40%40download/file/Manual%20para%20Bancos%20de%20Leite%20Humano.pdf.
  4. Bartick M, Hernández-Aguilar MT, Wight N, et al. ABM Clinical Protocol #35: Supporting Breastfeeding During Maternal or Child Hospitalization. Breastfeeding Medicine. 2021;16(9):664-674. doi:10.1089/bfm.2021.29190.mba. Disponível em: https://www.bfmed.org/assets/ABM%20Clinical%20Protocol%2035.pdf.


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