Segurança ocular e biossegurança no uso do laser terapêutico

A segurança ocular e a biossegurança no laser terapêutico dependem menos de uma orientação isolada e mais de um sistema consistente: equipamento conhecido, ambiente controlado, proteção ocular compatível, higiene das mãos, limpeza adequada e equipe treinada. O ponto central é não presumir que um laser descrito como “terapêutico”, “de baixa potência” ou “de baixa intensidade” seja automaticamente inofensivo para os olhos. O risco depende, entre outros fatores, do comprimento de onda, da potência, do modo de emissão, do tempo de exposição, da distância e da possibilidade de reflexão do feixe [1, 2].

Na assistência à lactante, a fotobiomodulação pode ser considerada dentro de uma avaliação clínica e de um plano terapêutico individualizado. Entretanto, a segurança do procedimento não deve ser inferida a partir de estudos de eficácia. Os ensaios clínicos disponíveis sobre dor e trauma mamilar utilizaram parâmetros diferentes, e a revisão sistemática mais recente encontrou evidência ainda limitada e heterogênea para estabelecer um protocolo universal [6]. Portanto, a primeira decisão clínica é reconhecer o escopo da intervenção e executar somente o que estiver respaldado pela formação profissional, pelo manual do equipamento, pelas normas institucionais e pelas regras aplicáveis ao serviço.

O que precisa ser controlado antes da aplicação

O preparo seguro começa antes de ligar o aparelho. O profissional deve confirmar qual equipamento será utilizado, sua finalidade, o comprimento de onda, a potência ou energia programada, o modo de emissão e os acessórios disponíveis. Essas informações precisam estar legíveis no equipamento, no manual ou no registro de manutenção. Se houver divergência entre a programação exibida e a documentação do fabricante, a aplicação deve ser interrompida até que a inconsistência seja esclarecida.

Também é necessário verificar se o dispositivo está em condições adequadas de funcionamento. Cabos, ponteiras, conectores, visor, botão de emergência e sinalizações devem ser inspecionados conforme a rotina do serviço. Um equipamento com dano, falha de emissão, aquecimento anormal, alerta de manutenção ou alteração não documentada não deve ser usado. A segurança não é garantida apenas pela aparência externa do aparelho.

O ambiente deve permitir controle do acesso e da direção do feixe. Sempre que houver possibilidade de exposição perigosa, é prudente restringir a circulação de pessoas, sinalizar a área e retirar objetos brilhantes ou superfícies que possam produzir reflexão especular. A avaliação deve considerar não apenas a pessoa atendida, mas também profissionais, acompanhantes, estudantes, equipe de limpeza e qualquer pessoa que possa entrar no espaço durante a emissão [1, 2].

Proteção ocular: como raciocinar

A proteção ocular precisa ser específica para o laser empregado. Óculos genéricos, óculos de sol, protetores transparentes ou equipamentos destinados a outro comprimento de onda não devem ser tratados como equivalentes. A seleção deve considerar, no mínimo, o comprimento de onda, a densidade óptica indicada, a faixa de proteção, o modo de emissão e a compatibilidade com o procedimento [2].

A identificação do protetor deve permanecer legível. Antes de cada uso, confira se há trincas, riscos importantes, deformações, falhas de vedação, perda de transparência ou danos na armação. O equipamento deve ser confortável o suficiente para permanecer colocado durante toda a emissão, sem necessidade de removê-lo para “melhorar a visualização” da área tratada.

A pessoa atendida e todos os presentes na área de risco devem receber proteção adequada ou permanecer fora dela, conforme a análise de risco e o protocolo do serviço. Em procedimentos próximos à face, pálpebras ou região periorbital, a avaliação precisa ser ainda mais rigorosa. Se o protetor ocular impedir a execução segura da técnica, a decisão não é simplesmente retirá-lo: é reavaliar a indicação, o posicionamento, o acessório, a distância e a necessidade de encaminhamento.

É importante diferenciar proteção ocular de conforto visual. Um filtro escuro pode reduzir a luminosidade percebida, mas isso não prova que oferece atenuação suficiente na faixa emitida pelo equipamento. Da mesma forma, a ausência de dor ou de clarão não exclui exposição relevante, especialmente quando a emissão não é visível. Alguns comprimentos de onda podem produzir lesões sem um sinal imediato percebido pela pessoa exposta [2, 3].

Biossegurança durante o atendimento

A biossegurança do laser terapêutico integra as precauções usuais da assistência em saúde com os controles específicos da radiação óptica. A higiene das mãos deve ocorrer nos momentos indicados para o cuidado: antes do contato com a paciente, antes de procedimento limpo ou asséptico, após risco de contato com fluidos corporais, após tocar a paciente e após contato com superfícies próximas [4].

A escolha de luvas, máscara, proteção ocular adicional ou avental depende do risco biológico do atendimento, da presença de secreções, da condição da pele e do procedimento associado. O laser não substitui medidas de precaução e não torna desnecessária a proteção contra sangue, leite, saliva, exsudato ou outros fluidos. Se houver contato com matéria orgânica, o fluxo de limpeza e desinfecção deve ser seguido conforme o protocolo institucional.

A ponteira, o espaçador ou qualquer acessório que toque a pele precisa ter um método definido de processamento. O profissional deve saber se o componente é descartável, reutilizável, passível de limpeza e desinfecção ou destinado a outro tipo de processamento. Não se deve improvisar com álcool, calor ou soluções químicas sem confirmar a compatibilidade com o material e a orientação do fabricante.

A limpeza e a desinfecção de superfícies também precisam ser diferenciadas. Quando há sujidade visível, primeiro ocorre a remoção da matéria orgânica e a limpeza; depois, a desinfecção com produto regularizado e conforme o protocolo do serviço [5]. O aparelho não deve ser pulverizado diretamente. A aplicação do produto em pano ou material compatível, quando prevista pelo fabricante, reduz o risco de infiltração e dano ao equipamento.

Aplicação prática: checklist de segurança laser terapêutico

Use o checklist como apoio à decisão, e não como substituto do treinamento ou do julgamento clínico:

  • Paciente e indicação: confirmar identidade, objetivo do atendimento, área a ser tratada, consentimento e possibilidade de interromper o procedimento se houver desconforto.
  • Equipamento: conferir identificação, comprimento de onda, parâmetros programados, integridade física, funcionamento e manutenção documentada.
  • Ambiente: controlar o acesso, sinalizar a área quando necessário, manter portas fechadas ou circulação restrita e retirar superfícies refletivas próximas ao feixe.
  • Proteção ocular: disponibilizar proteção compatível com o comprimento de onda e a densidade óptica indicada para paciente, profissional e demais pessoas expostas.
  • Ponteira e superfícies: higienizar as mãos, utilizar EPI conforme o risco biológico, processar acessórios conforme instrução validada e limpar a área de contato.
  • Durante a emissão: manter o feixe dirigido apenas à área planejada, evitar conversas ou movimentações que alterem o posicionamento e interromper diante de falha, dor inesperada, aquecimento excessivo ou perda da proteção ocular.
  • Registro: documentar equipamento, parâmetros, área, intercorrências, orientação fornecida e plano de reavaliação.

Esse roteiro ajuda a localizar o ponto de falha. Por exemplo, se a proteção ocular não está disponível, a decisão segura é adiar a emissão, buscar o protetor adequado ou modificar o plano dentro do escopo profissional — não iniciar “apenas por alguns segundos”.

Limites, sinais de alerta e encaminhamento

A segurança ocular não autoriza o profissional a diagnosticar lesão oftalmológica. Dor ocular, fotofobia, lacrimejamento persistente, sensação de corpo estranho, vermelhidão, visão turva, escotomas, alteração de contraste ou qualquer mudança visual após o procedimento exige interrupção da aplicação e avaliação oftalmológica. Em algumas exposições, os sintomas podem ser discretos no início; por isso, a ausência de queixa imediata não deve ser usada para descartar risco [2, 3].

Em caso de exposição acidental, desligue o equipamento, afaste a pessoa da fonte, preserve as informações do aparelho e dos parâmetros utilizados e registre o evento. A pessoa exposta deve receber orientação para avaliação médica, preferencialmente oftalmológica, com urgência compatível com a exposição e os sintomas. Não aplique colírios, pomadas ou medidas caseiras sem orientação clínica. Se também houver contato com produto químico ou material biológico, siga o protocolo específico de exposição ocupacional ou de contato com substância.

O artigo não substitui a avaliação individual da lactante, o manual do equipamento, a capacitação prática ou o protocolo local. Também não se aplica automaticamente a lasers cirúrgicos, dermatológicos, estéticos, odontológicos ou a dispositivos com outra classificação e finalidade. Cada modalidade pode exigir controles adicionais.

Acompanhamento e melhoria do processo

A revisão do protocolo deve ocorrer periodicamente e também após qualquer incidente, quase incidente, troca de equipamento, alteração de sala ou atualização das instruções do fabricante. O serviço deve manter uma lista atualizada dos aparelhos, parâmetros autorizados, responsáveis pelo uso, protetores disponíveis, validade ou condição de conservação e fluxo para manutenção.

A capacitação precisa incluir demonstração prática: identificação do comprimento de onda, leitura da etiqueta dos óculos, colocação e inspeção do protetor, controle da área, limpeza dos acessórios, resposta a falhas e registro do atendimento. Treinamento não deve ser reduzido a uma assinatura de presença.

Na reavaliação clínica, observe tanto o desfecho pretendido quanto eventos adversos e sinais de que o problema inicial permanece sem resposta. Dor mamilar, fissuras, edema, febre, mal-estar, piora da inflamação, dificuldade de amamentar ou suspeita de infecção exigem investigação da causa e, quando necessário, articulação com o profissional habilitado para diagnóstico e tratamento. A fotobiomodulação não deve atrasar medidas essenciais de manejo nem substituir o cuidado baseado na avaliação clínica.

Perguntas frequentes sobre segurança laser terapêutico

Óculos de proteção são necessários em todo atendimento com laser terapêutico?

A necessidade depende da classificação do equipamento, dos parâmetros, da área de risco e do protocolo de segurança. Quando houver possibilidade de exposição ocular perigosa, deve-se usar proteção específica para o comprimento de onda e para a densidade óptica indicada, envolvendo todas as pessoas presentes na área de risco [1, 2].

Óculos comuns ou de sol protegem contra o laser terapêutico?

Não. Óculos comuns, de sol ou destinados a outra fonte luminosa não comprovam proteção contra o comprimento de onda emitido. A proteção deve ser identificada e compatível com o equipamento utilizado [2].

Posso aplicar o laser se a paciente não quiser usar proteção ocular?

Não se deve iniciar a emissão sem resolver a condição de segurança. Explique o risco, verifique se há uma alternativa prevista no protocolo e, se a proteção adequada não puder ser garantida, adie ou não realize o procedimento.

O que fazer se ocorrer exposição acidental ao laser?

Interrompa a emissão, desligue o aparelho, registre os parâmetros e o evento e providencie avaliação médica, com atenção oftalmológica urgente quando houver exposição ocular ou sintomas visuais. Não use colírios ou medidas caseiras sem orientação.

A biossegurança do laser é diferente da biossegurança de outros atendimentos?

Ela combina as precauções de prevenção de infecções — como higiene das mãos, uso de EPI e limpeza de superfícies — com controles específicos para a radiação óptica, o equipamento, a área de risco e a proteção ocular [4, 5].

Fontes e referências

  1. International Electrotechnical Commission. IEC TR 60825-8:2022. Safety of laser products — Part 8: Guidelines for the safe use of lasers on humans. Disponível em: https://webstore.iec.ch/en/publication/63122.
  2. Occupational Safety and Health Administration. Guidelines for Laser Safety and Hazard Assessment. OSHA Directive STD 01-05-001. Disponível em: https://www.osha.gov/enforcement/directives/std-01-05-001.
  3. U.S. Food and Drug Administration. Frequently Asked Questions About Lasers. Disponível em: https://www.fda.gov/radiation-emitting-products/laser-products-and-instruments/frequently-asked-questions-about-lasers.
  4. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Segurança do paciente em serviços de saúde: higienização das mãos. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/seguranca_paciente_servicos_saude_higienizacao_maos_verde.pdf.
  5. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Segurança do paciente em serviços de saúde: limpeza e desinfecção de superfícies. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/manual-de-limpeza-e-desinfeccao-de-superficies.pdf/%40%40download/file/Manual%20de%20Limpeza%20e%20Desinfec%C3%A7%C3%A3o%20de%20Superf%C3%ADcies.pdf.
  6. Gaitero MVC, Mira TAA, et al. Low-level laser therapy for nipple trauma and pain during breastfeeding: systematic review and meta-analysis. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia. 2025;47:e-rbgo3. doi:10.61622/rbgo/2025rbgo3. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40242016/.


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